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Finlândia Travel Diary

Plano falhado: visita a Levi

Um mês na toca, no meio de nenhures, é tempo suficiente para me fazer ir laurear a pevide assim que os dias de folga sejam mais que dois. Entre trocas e baldrocas consegui mudar o meu horário para conseguir ter 4 dias de férias, o plano inicial era alugar um carro e seguir viagem até Levi. Levi é uma das regiões mais turísticas da Lapónia, tendo a maior estancia de ski e snowboard.

O plano

Reservámos o carro pela internet, só tínhamos de ir até ao aeroporto mais perto (que fica a uma hora) buscá-lo, pedimos boleia a uma senhora que trabalha connosco para nos levar e parecia que estava tudo controlado. Fizemos as malas, pegámos em algum equipamento de ski e adivinhava-se uma viagem tranquila. Mas claro que não foi assim tão simples.

A realidade

Para começar chegámos ao aeroporto e voilá um balde água fria. Não há carro para ninguém, apesar de ter sido feita a reserva não nos deram o carro porque não tínhamos nenhum cartão de crédito (pareço uma amadora). Tentámos outras agências de carros e nada. Estávamos no aeroporto e sem grandes opções, os transportes não são o forte deste país e apesar de caros são também escassos. Estudadas as hipóteses só nos restava voltar para casa, até um voo para Helsínquia ponderámos, tal era a vontade de ir desanuviar. Voltar para casa foi outra carga de trabalhos, nada de autocarros e a senhora que nos deu boleia não nos podia levar de volta. A juntar ao azar estava uma tempestade de neve na rua e pedir boleia na estrada estava fora de questão. Com muito esforço e garantia de que pagávamos o gasóleo conseguimos que um rapaz finlandês que trabalha connosco nos fosse buscar. Os planos para os dias de descanso começavam a fugir e tememos passar 4 dias fechadas em casa.

Mas como quem acredita consegue, no dia seguinte conseguimos boleia ( ainda que pelo meio nos calhou um pneu furado) para o destino, Levi. A nossa colega de casa Finlandesa perguntou num grupo de facebook de boleias se alguém ia para aqueles lados e foi desta forma que pusemos outra vez a mala às costas. A boleia era só de ida, a volta era ainda uma incógnita. Pagámos 30 euros e passadas duas horas estávamos em Levi.

Levi sendo uma das regiões mais turísticas pratica preços absurdamente elevados, a Finlândia já é cara e nesta vila é ainda pior. Só decidimos avançar para esta vila porque encontrámos um local para ficar de borla, recorremos ao couchsurfing. O couchsurfing.com é uma plataforma online onde é possível procurar por um local para dormir de borla em casa de alguém que disponibiliza uma cama ou apenas um sofá, e é também uma óptima forma de conhecer novas pessoas.

Em Levi só encontramos uma pessoa a fazê-lo por isso era quase impossível existir espaço para nós mas a sorte jogou a nosso favor e fomos aceites. Um rapaz Italiano, que há três anos que vem para Finlândia trabalhar na época de Inverno, recebeu-nos como se de um Airbnb se tratasse tal foi a simpatia. Não tínhamos sido as únicas a pedir guarida, um rapaz e uma rapariga da República Checa também iam fazer couchsurfing, portanto fomos 5 a dormir numa casa para três. A disponibilidade do rapaz italiano foi fantástica, o lema era os hospedes primeiro, ainda que estivéssemos lá de borla.  A casa, como é normal na Finlândia, tinha uma sauna dentro da casa de banho e uma vista brutal para a floresta coberta de neve. As refeições tomadas na janela da varanda foram um dos pontos altos da estadia.

Entre montanhas, caminhadas, mil quedas (botas que escorregam na neve são do melhor nestas caminhadas, ou NÃO) e de paisagens deslumbrantes o melhor momento aconteceu logo na primeira noite. Mais uma loucura que põe os níveis de adrenalina bem altos. O rapaz Italiano trabalha num bar de um hotel no cimo de uma estância de ski e convidou-nos para o ir visitar a seguir ao jantar. A forma de lá chegar a pé é subir 766 degraus feito de madeira que passam pelo meio de uma floresta, cheguei lá acima assim para o morta. Ficámos por lá até ele sair à meia-noite e eu já só pensava nos degraus que tinha para descer… mas outra ideia surgiu.

Como é que voltei para baixo à meia-noite?

Um saco de plástico do lixo e um modo de sku pela estância abaixo. Posso garantir que era bem alto e que senti o coração a fugir enquanto descia a colina a toda a velocidade. Parei umas três vezes (só para perceberem a altura), ajeitei o saco, limpei a neve da cara e arranquei para a última parte. Cheguei com neve em todo o lado e com a sensação que tinha tido um dos melhores momentos da minha vida.

Três dias que foram melhores do que planeado, fui só com uma rapariga russa que trabalha comigo mas nunca estivemos sozinhas. Éramos 5 pessoas naquela casa e tornamo-nos num grupo que seguia junto para todo o lado, não faltaram os jogos ao fim da noite, as aventuras e os ensinamentos de novas línguas.

E a viagem de volta a casa?

Sem autocarros, com pouca vontade de gastar dinheiro e com trabalho no dia seguinte só nos restou uma solução, pedir boleia na beira da estrada. E era bom que resultasse. Acordámos cedo, fomos ao supermercado comprar alguma comida, arranjámos uns papelões e escrevemos várias cidades que nos davam jeito para apanhar boleia. A primeira tentativa era a vila perto de nossa casa, fomos para a estrada que faz ligação directa e com o sinal a dizer “Inari” esperámos e gelámos durante duas horas e meia. Muitos foram os carros que nos ignoraram naquela estrada pouco movimentada, estavamos já a pisar a linha da preocupação quando vimos uma caravana a parar. WHAT? Acho que há muito tempo não ficava tão feliz. Um senhor saiu, chamou-nos e apronto-se a dizer que não falava inglês. Bem, saiu-nos a sorte grande, não só tínhamos arranjado boleia directa para a vila como íamos à grande e à francesa dentro da caravana.

Chegámos a Inari e deixaram-nos na bomba de gasolina, só nos faltavam 10 km até casa. Fomos ao supermercado/correios arranjar outro cartão para pedir boleia para casa e começámos andar. Passado um bocado a caravana apareceu outra vez (foi alegria máxima) deram-nos boleia por mais 3km e seguiram noutra direção. Já só nos faltavam 7 km, estávamos convencidas que o caminho ia ser a penantes, passam em média 3 carros por hora naquela estrada por isso a esperança era pouca. Mas fomos sortudas outra vez, nova boleia e directa para casa.

Quanto gastei?

Três dias de pausa que me custaram no total 40 euros. Há sempre formas de viajar com pouco, os luxos não são os mesmos e a capacidade de adaptação tem de ser maior mas as aventuras valem tudo isso.

Sem o rapaz italiano do couchsurfing não tinha feito metade das coisas que fiz e se tivesse chegado alugar o carro não tinha tido a experiência de pedir boleia numa estrada quase deserta no meio da Lapónia.

Às vezes os planos têm mesmo de falhar.

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